Quando a música paralisa, mareja os olhos e faz todo mundo igual

Quando a música paralisa, mareja os olhos e faz todo mundo igual
07 dez 2016

Coral Serenata de Natal invadiu quatro estações do Metrô, na noite desta terça (6/12), e deu um show de música e emoção. A volta dos usuários para casa mudou completamente

Texto: Marcelo Abreu/Ascom/Metrô-DF
Fotos: Paulo Barros/Ascom/Metrô-DF

(Brasília, 07/12/2016) - A chuva desabou exatamente no fim da tarde. Veio o dilúvio. Rodoviária do Plano Piloto encharcada. Um mundo de gente na volta para casa. Gente correndo, molhada, em zigue-zague. Gente apressada, gente molhada, gente que, às vezes, nem enxerga gente. Na Estação Central do Metrô, que emenda com a Rodoviária – lugar onde passam mais de meio milhão de pessoas por dia – só se via gente.

Mas, aos poucos, eles foram chegando. Alguns, também molhados. Vieram de longe. Até de Valparaíso (GO). Nem a distância e o tempo ruim os impediram de chegar. Juntaram-se no canto. E aqueceram a voz. Aquela gente apressada, louca pra chegar em casa, não entendeu nada. Uns olhavam desconfiados. Outros, ainda na correria, detinham-se mais um pouco para entender o que aquela gente estava fazendo ali.

De repente, na plataforma superior da Estação Central, todos juntos, soltaram a voz. E foi um momento mágico. A volta para casa, no começo da noite desta terça-feira (6/12), nunca mais será esquecido. O Coral Serenata de Natal, o maior de Brasília, com 36 anos de existência e cerca de 150 pessoas que se dividem em apresentações, deu um show. E era só o começo.

Cenas inimagináveis foram se sucedendo. A pressa, a confusão, a chuva que insistia em cair, tudo isso, magicamente, tornou-se secundário. As pessoas deram lugar a alguma calmaria. Umas pararam. E quiseram apenas escutar a música, que tocou cada um de uma forma bem especial. O trem? Que venha o próximo. A vida, às vezes, pode ter alguma calma.

Uma das cenas mais emocionantes foi a do pedreiro Antônio Pinheiro, de 57 anos e uma vida inteira de trabalho braçal. Operário da construção civil, natural de Lago da Pedra, confins do Maranhão, ele chegou apressado. Havia urgência em pegar o próximo trem com destino a Samambaia.

De repente, o homem, que tem pouco mais de metro e meio de altura, parou. De longe, ficou admirando aquela gente cantar músicas de Natal. E, como se fosse um sonho bom, os olhos do maranhense miudinho ficaram marejados. “É a primeira vez na vida que vejo um coral de perto, bem na minha frente. Mexe com a emoção da gente”, disse o operário. E, depois de ouvir as canções que quis, antes de pegar o trem, confessou: “Até ajuda a diminuir a canseira da gente”.

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Trabalho social
A Serenata de Natal, um dos corais mais tradicionais da cidade, é composta por gente também muito especial, com histórias de vida muito especiais. Além de cantar, eles fazem um trabalho social intenso. Recolhem, ao longo do ano inteiro, doações de todos os tipos – comida, roupas, fraldas geriátricas e pediátricas, brinquedos – e levam para asilos, creches e orfanatos. Contam com ajuda de parceiros e algumas empresas. E encantam as pessoas, em qualquer lugar onde se apresentam, com o melhor que têm: soltam a voz.

Um dos integrantes, o psicólogo Danilo Alves Rippel, de 27 anos, desde 2014 no Coral, tem uma história interessante. Ele mesmo entrou no grupo para curar uma depressão. E na tarde desta terça, soltando a voz de forma comovente, revelou: “Aqui encontrei uma sensação de pertencimento de grupo. A partir do canto, a solidariedade. Tudo mudou”. O psicólogo Danilo se livrou da depressão e, no lugar dela, colocou a música e o trabalho voluntário. Nada mais foi como antes.

Aquecidos, era hora de seguir viagem. A Serenata de Natal ainda tinha que percorrer mais algumas estações. Antes de pegar o trem com destino à Estação Galeria, num recuo depois da escada rolante, ainda deu uma canjinha na plataforma inferior. E, mais uma vez, provocou emoção dos que ali estavam.

Gente sacando os seus celulares para filmar, gente descendo às pressas a escada e, de repente, até no susto, parando para ouvir. A moça da limpeza esqueceu-se da vassoura. Num cantinho, cantou baixinho, acompanhando o coro, Noite Feliz, um dos clássicos. A música tem o poder brutal de igualar todos os seres humanos. Como deve ser. Como tem que ser.

“Eu não perdi. Deixei passar”
E partiram, cantando dentro do trem. Os usuários não acreditaram no que ouviam e viam. O porteiro Adauto Guimarães, 58, que seguia para Ceilândia Centro, extasiado, disse: “Se todos os dias fossem assim, a volta seria mais divertida”.

E o grupo, com cerca de 40 componentes, desceu em Galeria. Mais expressões de surpresa e perplexidade dos usuários. No piso inferior da estação, a música invadiu todo o espaço. De longe, assistindo a tudo, o analista administrativo Edmilson Souza Anastácio, paulistano de 50 anos. Ele aguardava o trem que o levaria para Samambaia.

De repente, o trem passou. E partiu. Ele não saiu do lugar. Ele ouve. Canta baixinho algumas das canções. Fotografa do celular. E se deixa apenas viajar com a música. Quando perguntado por que perdeu o trem, ele não hesitou: “Perdi, não. Deixei passar para ouvir. Isso é cultura. E faz bem”. Não há mais o que perguntar. Ali, só a emoção de Edmilson fez sentido.

E o trem seguiu. Mais uma vez. Destino: Feira.  Carro lotado. Ninguém reclamou.  No fundo do carro, estava a estudante Silvana Maria Araújo, 19. “Antes, eu achava careta coral de Natal. Nem parava pra ouvir. Agora, aqui, to vendo que é legal. A gente precisa deixar os preconceitos de lado”. Seu piloto, pare o trem. Se a música ajudou a moça a rever o que pensava, ela foi além da sua missão. Isso é magia. É o milagre da música e do encantamento.

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Bem baixinho
E mais uma vez foi hora de partir. Desta vez, com destino à Estação Águas Claras, a última parada. O coral cantava: “Deixe acender a luz que nasce a cada dia… Quando o Natal chegar…” Perto da porta, quietinho, movimentando a boca e cantando em silêncio, o funcionário público Paulo César Oliveira, 58 anos, casado, dois filhos, admitiu que cantava a música do coral. “Fazia muito tempo que não ouvia essas canções. E disse, com cara de felicidade: “É uma volta pra casa diferente, mais leve”.

E a Serenata soltou a voz. O trem seguiu a sua viagem. Aplausos para a música. Desembarque em Águas Claras. Eram 20h36. As pessoas que esperavam o trem para Samambaia e Ceilândia se aproximaram dos integrantes. Mais belas canções. A assistente pedagógica Luzinete Viana, de 34 anos, parou para ouvir. Ex-integrante do coral, este ano ela não fez parte. “Além da música, isso aqui é doação”, comentou.

Um dos regentes da Serenata, Arthus Okade, 23, traduziu bem toda essa experiência: “Nosso trabalho é trazer a música à comunidade. E encontrar o cotidiano das pessoas”. Desde agosto, o grupo começou as apresentações. Até dezembro, a maratona é longa. Mas nem o cansaço os desestimula. Régia Fernandes Freire, aposentada, 63, cantava em outro coral havia 16 anos. Estreia no Serenata agora. “Participar desse trabalho é muito gratificante. É doação. Isso é o que me motiva.”

O bancário Rander Mello, de 53 anos, também está estreando na Serenata. “Um dia, passei na UnB e vi o pessoal ensaiando. Achei bonito e quis entrar, mas avisei que não sabia cantar. Não houve problema. E aqui estou. É muito bonito ver a alegria das pessoas quando nos assistem”, emocionou-se.

Na Estação Águas Claras, o coral deu um show. Cantou a clássica Feliz Natal em francês, inglês e espanhol. O público adorou. E aplaudiu com verdade. Gente de verdade não mente nem em aplausos. Depois de três horas de música, cantando de estação em estação, em hora de pico, carros lotados, e muita chuva, os integrantes ainda estavam felizes. E mais ainda porque tiveram a certeza de que mudou, pelo menos nesta terça, a rotina, quase sempre cansativa, de muitos usuários.

Se apenas Antônio Pinheiro – o operário da construção civil que marejou os olhos, lá na Estação Central, diante do que nunca tinha visto – tivesse parado para ouvi-los, já teria valido a pena. Toda essa história teria feito sentido.

A música que invadiu a vida daquela gente na volta pra casa trouxe a certeza de que, quando há sentimento, tudo fica igual, tudo se nivela: o pedreiro ou o advogado engravatado. Isso, sim, é real. E tudo que é real, em essência, transforma.

Que venha mais música. Mais emoção. E mais gente real.

Serviço
Quer saber mais sobre o coral? Acesse o site: www.serenatadenatal.org

Confira a galeria de fotos

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