“A vacina para combater o preconceito racial é a ação afirmativa”, diz Mário Theodoro

“A vacina para combater o preconceito racial é a ação afirmativa”, diz Mário Theodoro
24 nov 2016

Palestra sobre racismo institucional, no CAO, reúne empregados para discutir discriminação

Texto: Fabíola Góis/Ascom/Metrô-DF
Foto: Paulo Barros/Ascom/Metrô-DF

(Brasília, 24/11/2016) – Vinte e cinco mil jovens negros são assassinados no Brasil por ano, o equivalente à queda de um Boeing a cada dois dias. O espanto, porém, não parece incomodar tanto a sociedade. Porque se trata de uma raça que ainda se depara com a exclusão, que enfrenta o preconceito em sua face mais cruel. Essas são algumas conclusões tiradas durante a palestra Racismo Institucional, realizada nessa quarta-feira, no CAO, proferida pelo professor Mário Theodoro, doutor em Economia pela Université Paris I – Sorbonne e professor associado do Mestrado em Sociologia e Mestrado em Política Social da UnB desde 1999, onde é responsável pela disciplina “Políticas Públicas e a Questão Racial”.

Mário Theodoro apresentou um histórico sobre a chegada dos negros ao Brasil, aparição do racismo na história do Brasil até os programas de ação afirmativa criados para combater a desigualdade racial. Os números comprovam a existência de uma minoria da sociedade que foi esquecida pelos governos desde a abolição da escravidão. Para se fazer um comparativo com a África do Sul, no auge do Apartheid, em 1970, o número de negros nas universidades africanas era maior do que no Brasil. “O racismo como ideologia na África do Sul tem uma linha divisória entre brancos e negros; no Brasil, todos bebem e respiram esse racismo”, afirmou o professor.

Theodoro citou a “Lei do Boi”, que vigorou de 1968 a 1985, como primeira lei de cotas no Brasil. Ela garantia o livre acesso aos filhos de fazendeiros e agricultores em cursos universitários federais da área de agronegócios. No entanto, como os filhos dos negros não conseguiram chegar a esse nível educacional, quem conseguia as vagas eram os filhos dos fazendeiros. “Como ela beneficiou uma população abastada e de maioria branca, pouco se fala sobre ela”, destacou.

O professor citou que o racismo foi incorporado na sociedade brasileira após a abolição. Em 1850, foram criadas as leis do ventre livre e a do sexagenário, mas não foram feitas políticas sociais para diminuir o preconceito. “Em 1970, a ONU questionou se havia preconceito e discriminação no Brasil, e responderam, em um parágrafo, que não existia necessidade de se fazer política social”, criticou Theodoro.

Participação
A participação dos empregados, com perguntas sobre como combater o preconceito e discriminação, enriqueceram o debate. A chefe de divisão da DTE, Fernanda Sousa, lembrou que, quando os negros ascendem socialmente, se deparam com o preconceito. “Por isso se fala tanto na solidão da mulher negra, que se vê sozinha em uma sociedade que a discrimina”, comentou. Além disso, a mulher negra recebe menos da metade do que um homem branco, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) deste ano.

O supervisor setorial Carlos Eduardo Ventura disse que já enfrentou preconceito pela cor durante o trabalho nas estações. Descendente de quilombo e empregado do Metrô há 10 anos, ele destacou a iniciativa da empresa. “É a primeira vez que o tema é trazido pela presidência e é importante discutirmos o assunto no trabalho”, afirmou.

O evento foi uma parceria entre a presidência da empresa e a Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh). O subsecretário de Igualdade Racial do Distrito Federal, Victor Nunes, da primeira turma de cotas da Universidade de Brasília, em 2004, afirmou que o nível acadêmico dos negros que entraram por cotas é superior ao dos estudantes do sistema universal, com evasão menor e notas maiores. “Quando entrei, havia apenas 2% de negros na UnB. Hoje, já temos 26%. Ações com esta combatem a desigualdade”, opinou.

Victor Nunes elogiou a empresa pela iniciativa em combater o preconceito e citou que o Metrô assinou o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, desenvolvido pelas Nações Unidas, e que consiste em disseminar novas concepções na gestão de pessoas e na cultura organizacional para alcançar a igualdade entre mulheres e homens no mundo do trabalho.

Questionado sobre a capacidade do negro e branco ser idêntica, Theodoro citou que não é possível comparar. Segundo ele, pesquisas apontam que crianças negras recebem menos carinho das professoras na escola, entre outros fatores. “Elas não recebem carinho porque há resistência em tocar o cabelo crespo, beijar o rosto. Desde pequenas elas já sofrem o preconceito”, apontou.

 

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