Ele, agora, é um homem completo

Ele, agora, é um homem completo
01 set 2016

Cláudio Irineu, empregado do Metrô-DF desde 2005, foi o primeiro atleta paralímpico de Brasília a conduzir a tocha na abertura da cerimônia de acendimento. Evento foi realizado na manhã desta quinta-feira (01), no Parque da Cidade.

Texto: Marcelo Abreu/Ascom/Metrô-DF
Fotos: Paulo Barros/Ascom/Metrô-DF

(Brasília, 01/09/2016) - Ele conseguiu. A tocha era toda dele. As selfies foram todas com ele. Autoridade, gente de gravata,a menina na cadeira de rodas gente simples, gente real, como devem ser as gentes. Lucélia Maria Fontenelle, a gari de 29 anos, emocionada, também quis registrar o momento. Sacou o celular meio surrado, mas também quis o momento dela ao lado dele. “Eu vi correndo. Ele merece”. emocionou-se. Cláudio Irineu da Silva virou herói. Na manhã desta quinta-feira (01/9), no Parque da Cidade, na cerimônia de acendimento virtual da tocha dos Jogos Paralímpicos, todas as atenções eram pra ele.

A solenidade, no estacionamento 12, foi aberta pelo governador Rodrigo Rollemberg e a secretária dos Esportes, Turismo e Lazer, Leila Barros. O professor Ulisses Araújo, que trabalha com pessoas com deficiência desde 1980, em parceria com o governo de Brasília pela Associação Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetef), acendeu o fogo olímpico.

E coube a ele, o rapaz com quem todo mundo quis fazer selfies, o primeiro a conduzir a tocha. Cláudio Irineu da Silva – de 48 anos, empregado do Metrô-DF, viveu, nesta manhã de quinta, o melhor dos seus dias.

Além da condução, vai levar a tocha para casa, definitivamente, depois de uma campanha de solidariedade, realizada em dois dias, entre amigos e desconhecidos, na internet. Ele conseguiu juntar R$ 2 mil, valor que o Comitê Rio 2016 estipula para quem quiser ficar com a tocha.

A solenidade de apresentação do acendimento, feita com a mais moderna tecnologia, foi acompanhada de mensagens de apoio enviadas pela internet por pessoas de várias partes do mundo.

Um filme
Pontualmente às 9h58, foi acesa. Cláudio, o homem mais feliz do mundo, conduziu-a. Flashes disparados, câmeras de TV ligadas e muitos celulares disparados. Do Parque da Cidade, a tocha seguiu para um trajeto por Brasília, durante todo o dia. À tarde, voltou para um revezamento de 10 quilômetros dentro do parque, passando pelo kartódromo e pela hípica.

Neste momento, 82 atletas – das 103 pessoas que vão carregar o símbolo dos jogos durante todo o dia – conduziram o símbolo dos Jogos.

O governador Rodrigo Rollemberg, na abertura da cerimônia, ressaltou: “O Brasil é o sétimo do ranking mundial e tem a pretensão de ficar entre os cinco primeiros nessa Paralimpíada”. E complementou: “Brasília, símbolo da igualdade, tem a honra de, assim como na Olimpíada, ser o local de acendimento da tocha”.

A secretária Leila Barros, ex-atleta olímpica de vôlei, também quis parabenizar o homem mais disputado nesta manhã. E lhe disse, emocionada: “Só quem já conduziu uma dessa sabe a emoção que é, né?” Cláudio Irineu concordou.

E um filme passou pela sua cabeça. Os sonhos do garoto pobre de Ceilândia, que, aos 20 anos, jogando profissionalmente e era a grande promessa de um time de futebol da cidade, tiveram que ser refeitos. Numa pelada num campo de terra, numa entrada maldosa, fraturou a perna esquerda. Engessada de forma errada, teve gangrena e acabou amputando a perna.

Cláudio teve que reaprender a viver. A equilibra-se num par de muletas. Rotas foram alteradas. Planos desfeitos. Caminhos modificados. Ele chorou. Mas sabia que era preciso seguir. E seguiu. Entrou para seleção de futebol para amputados, no Rio de Janeiro. Sagrou-se campeão mundial quatro vezes. Mas o sonho maior ainda estava por vir. Como o futebol para amputados ainda não faz parte de competição paralímpica, ele migrou para o vôlei. Em Pequim, em 2008, veio a tão sonhada dourada.

Turbilhão
Na manhã desta quinta, a família de Cláudio – mulher e dois filhos – foram para a cerimônia de acendimento da tocha parlímpica. Giovana, de 13 anos, toda encabulada, disse: “Ele é o meu herói”. Cláudio Júnior, 15, o filho mais velho, tem certeza: “Meu pai merece, por toda história de vida dele”. Quando perguntado qual a grande lição que o pai lhe ensinou, o garoto – que atleta de natação – não hesita: “A humildade”. Não havia mais o que perguntar.

Completamente emocionada, a mulher, Kátia Freitas, de 40 anos, que o conheceu quando Cláudio tinha amputado a perna havia um ano, tentou dizer: “Ele, pra mim, representa superação”. E Cláudio, o que ainda teria para dizer: “É um turbilhão de emoção. Hoje estou completo. É o elo final da minha história como atleta”.

E uma pergunta que não quer calar: onde ficará a tocha?? Cláudio ri e diz: “Na sala, no lugar da televisão”. Kátia, a dona da casa, já concordou. Há histórias que precisam ser contadas. Esta é uma.

Confira a galeria de fotos:
Ele, agora, é um homem completo

 

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>