A manhã em que a solidariedade venceu o vírus

A manhã em que a solidariedade venceu o vírus
09 jun 2016

O Corpo de Segurança Operacional do Metrô-DF levou à Fale, instituição no Recanto das Emas que acolhe famílias de soropositivos, as doações arrecadas na Campanha CSO Solidário. Ação integra o projeto Metrô Solidário

Texto: Marcelo Abreu/Ascom/Metrô-DF
Fotos: Paulo Barros/Ascom/Metrô-DF

(Brasília, 08/06/2016) - O caminhão laranja entupido de doações chegou levantando poeira. Bobagem. E quem ligou para a poeira? Chegou mesmo para animar e trazer ainda mais esperança aos moradores da Fundação Assistencial Lucas Evangelista (Fale), no Recanto das Emas, entidade que cuida de crianças, jovens e adultos soropositivos há 23 anos e abriga atualmente 130 pessoas, divididas em 58 famílias.

Dentro daquele caminhão – onde as caixas eram passadas de mão em mão, numa fila formada entre os agentes de segurança do Metrô-DF e pessoas em situação de rua – havia mais de cinco mil itens de doações, entre brinquedos, casacos, cobertores, roupas masculinas e femininas. Esse foi o resultado da 2ª edição da Campanha CSO Solidário da Companhia do Metropolitano do DF (Metrô-DF), ação que integra o projeto Metrô Solidário.

Desde 25 de abril, quando teve início a arrecadação nas estações Central, Shopping, Praça do Relógio, Terminal Samambaia e Ceilândia Centro, os usuários deixaram brinquedos, alimentos não perecíveis, cobertores e agasalhos para serem doados a asilos, creches e orfanatos no Distrito Federal.

O evento, parceria com os Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centro Pop) e com o Banco de Alimentos da Ceasa, que forneceu o cadastro das entidades que recebem ajuda governamental e o transporte de todos os itens arrecadados, mais uma vez foi um sucesso.

E mesmo tanto com a emoção das pessoas que as próprias pessoas em situação de rua decidiram arregaçar a manga das camisas e trabalhar na separação de todo o material.

Na manhã desta quarta (8), as doações chegaram ao destino certo. As crianças vibraram. Os adultos acreditaram, mais uma vez, numa boa ação. E os agentes do Corpo de Segurança Operacional, que lotaram aquele ônibus laranja, não fizeram questões de disfarçar a emoção. Em alguns, lágrimas molharam os rostos. A coordenadora da instituição, Camila Souza, 27 anos, chegou à instituição aos 9 anos, com a família, e nunca mais saiu. Em lágrimas, ela disse: “Vocês não sabem como isso é importante pra nós. Isso representa vida”.

Cidadania e inclusão
Numa conversa mais reservada, uma moradora desabafou: “A Fale salvou a minha vida. Sou viciada em droga injetável e peguei o vírus HIV com seringa contaminada. Aqui conheci meu marido, me casei, não uso mais droga, tenho HIV, mas agora tenho vida”. Todos que escutaram o desabafo da moça nada disseram. E não tinha mesmo o que dizer. Quando se ouve algo tão real – e dito com tanta sinceridade – as palavras que deveriam voltar engasgam.

O coordenador de Segurança Operacional do Metrô-DF, Ubirajara Santos, o idealizador do CSO Solidário, também emocionado, disse: “A palavra não pode ser outra. É gratidão. Nós é que saímos ganhando”. E repetiu: “Esse é um projeto que trata de solidariedade, inclusão e cidadania”.

Para dar mais emoção à manhã, Maurício Alves dos Santos, 42, uma das pessoas em situação de rua e que trabalharam muito na separação das doações, tocou canções que falavam de Deus e de esperança. “A ideia é fazer o bem. Isso já é uma grande ação.”

Luciano Nunes Paiva, 45, educador social de rua e um parceiro sem hora no Centro Pop de Taguatinga, um “resgatador de gente e suas histórias”, não escondeu a comoção: “Dá uma alegria enorme ver o trabalho realizado. E quando a gente consegue alegrar outras pessoas, nós mesmos somos os beneficiados”.

Uma das integrantes da equipe do Metrô Solidário, Cida Leal, também em lágrimas e abraçada à coordenadora Camila, ressaltou a importância da campanha e torceu para que se torne calendário anual do Metrô. “Todo mundo doou e aprendeu. Essa é a grande lição que fica.”

Salvar vidas
Depois, foi hora de passear pelo espaço, cercado de casinhas azuis e verdes. Umas de alvenaria; outras, de madeirite. Agentes do CSO carregaram crianças nos ombros. Uma menininha extasiou-se com um bicho de pelúcia. E a vida ali seguiu o seu fluxo normal.

Fim da manhã. Hora de ir embora. Ubirajara prometeu voltar, ano que vem, na 3ª Campanha do CSO Solidário. Abraços de despedidas. Dentro daquele lugar, na verdade uma grande chácara cercada de pequenas casas, ficou a esperança de que, longe dali, há gente que se importa com gente. Mesmo que nem conheça.

Na Fale, onde um vírus segrega e mata pessoas mais pelo preconceito do que pela própria doença, nesta manhã de quarta (8), só houve uma certeza: ele, o tal vírus, virou coadjuvante. Ninguém ligou pra ele, ninguém nem se lembrou dele. Todo mundo o ignorou, solenemente. O grande personagem foi a solidariedade. Esta não mata. Pelo contrário. Salva e conta histórias. E é muito, muito maior do que um vírus que acha que pode afastar as pessoas.

Ano que vem tem mais.

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