Por um rastro de esperança

Por um rastro de esperança
01 jun 2016

Corpo de Segurança Operacional do Metrô-DF encerra 2ª Campanha Solidária para arrecadar alimentos, brinquedos e agasalhos. Mais de 5 mil itens serão doados a uma instituição cadastrada. Ação integra o projeto Metrô Solidário

Texto: Marcelo Abreu/Ascom/Metrô-DF
Fotos: Paulo Barros/Ascom/Metrô-DF

(Brasília, 01/06/2016) - A mãe entrou na Estação Galeria empurrando o carrinho do bebê. Um homem, no meio do caminho, tocava Tempo Perdido, de Renato Russo: “Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou…” A mãe parou para escutar a música. O bebê, de olhos arregalados para o moço, sorria. A mãe, Ivonete Araújo, de 46 anos, resolveu ficar até o fim da música. A única filha, Beatriz, de 1 ano e quatro meses, tem síndrome de Down.

“Ela só come com música. Só abre a boca se gostar da música. É a coisa de que mais gosta. Ela é toda música”, diz a mãe, que vinha de mais uma sessão de terapia no Hran e voltava para a casa, em Águas Claras. Beatriz faz estimulação precoce desde que nasceu.

E nesta manhã de quarta (01/06), Beatriz sorriu com a música que tocou no meio daquela estação. A mãe voltou para casa mais feliz. Beatriz também. Mas, afinal, o que aquele homem fazia tocando no meio da estação? Ele, que vive em situação de rua, estava ali para comemorar o término da campanha da 2ª edição da Campanha CSO Solidário da Companhia do Metropolitano do DF (Metrô-DF), ação que integra o projeto Metrô Solidário.

Desde 25 de abril, quando teve início a arrecadação nas estações Central, Shopping, Praça do Relógio, Terminal Samambaia e Ceilândia Centro, os usuários deixaram brinquedos, alimentos não perecíveis, cobertores e agasalhos para serem doados a asilos, creches e orfanatos no Distrito Federal. Pelo menos cinco mil itens foram arrecadados.

Álcool
E as pessoas, num vaivém sem fim, continuaram as suas andanças. Beatriz ouvia a música, E mais pessoas em situação de rua foram chegando. De repente, um tanto deles, virou artista. A rua, de certa forma, talhou a arte em cada um, à sua maneira, com as próprias tatuagens. Maurício Alves Santos, 42, já foi frentista, repositor, auxiliar de limpeza. O álcool o levou ao fundo do poço. Perdeu emprego, família, o convívio com o filho. Perdeu o próprio caminho. Restou a rua.

Hoje, Maurício vive num abrigo em Taguatinga. Tenta encontrar o caminho que perdeu e que, em alguns momentos, torna-se doloroso achar a volta. Mas, como se a dor o fortalecesse, solta a voz quando encontra um microfone. Vieram também David Machado Babilônia, Rony  Von e Davi Silva. Cada um com as suas próprias histórias e dores. Cada um com um motivo bem pessoal por ter, por algum momento, vivido na rua.

Davi foi chamado, pela banda composta pelos seguranças do Metrô, a MetroSom, a cantar. Ele abriu o evento musical. O rapaz mastigou a sua dor, engoliu a tristeza e soltou a voz em “É preciso saber viver”. Arrepiou quem por ali passava.

Libertação
Um tanto de gente, mesmo no vaivém, cantava baixinho. Davi, que vive na rua, virou rei. Todas as atenções para ele. Fotos de celulares. Aplausos. A voz, poderosa, emocionou as pessoas. “Cantar me liberta”, disse ele, minutos antes de se apresentar.

Compareceram à Estação Galeria o diretor-presidente do Metrô, Marcelo Dourado; a subsecretaria de Assistência Social, Solange Martins; o gerente do Centro Pop de Brasília, Luan Grisólia; o educador social do Centro Pop de Taguatinga, Luciano Paiva; a diretora de serviços especializados à família e indivíduos, Amanda Campina; a coordenadora de projetos equinócios, Juliana Sangoi; o gerente de segurança alimentar do Banco de Alimentos, Natalino Souza; e o coordenador setorial do Corpo de Segurança do Metrô-DF, Ubirajara Santos.

Dourado parabenizou a campanha e prometeu fazer dela ação de calendário de todos os anos do Metrô-DF. “É o elo de uma corrente. E quem ganha é sempre quem mais precisa”. Ubirajara, bastante emocionado, disse: “Esse é um projeto que trata de solidariedade, inclusão e cidadania. Hoje, o CSO Solidário assume essa dimensão”.

A banda do CSO deu um show com as interpretações Gospel. Músicos de primeira qualidade. As pessoas pararam para fotografar e cantar as letras conhecidas. Encerrando o evento, o agente de segurança operacional Thiago Marques explicou por que cantaria aquela canção: “Eu também já sofri preconceito. E sei o que é isso”.

Sem preconceito
E soltou a voz em Olhos Coloridos: “Os meus olhos coloridos me fazem refletir, eu estou sempre na minha e não posso mais fugir. Meu cabelo enrolado, todos querem imitar, eles estão baratinados, também querem enrolar…Você ri da minha roupa, você ri do meu cabelo, você ri da minha pele, você ri do meu sorriso…”

Aplausos. Muitos aplausos. Na verdade, a síntese dessa campanha, além da solidariedade, é olhar para quem está ao lado e, ainda assim, está completamente invisível. E, quando se olha para quem nunca quase foi visto, é uma forma de diminuir o preconceito – que segrega, machuca, fere e pode até matar.

O CSO Solidário, sem imaginar, recebeu muito mais do que doações materiais. Abarrotou-se de bons exemplos e histórias de vida. E isso não se mensura, não pode ser contado, não pode ser quantificado, não cabe em caixas. Ano que vem tem mais.


Confira a galeria de fotos do evento
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