Para amenizar as dores da alma

Para  amenizar as dores da alma
18 mai 2016

Para celebrar o Dia Nacional da Luta Antimanicomial,  comemorado nesta quarta (18), pacientes do Hospital São Vicente de Paulo fizeram uma divertida viagem de metrô entre as estações Praça do Relógio e Terminal Ceilândia

Texto: Marcelo Abreu/Ascom/Metrô-DF
Foto: Asley Ribeiro/Ascom/Metrô-DF

(Brasília, 18/05/2016) - Foi um passeio para ficar na memória. Mesmo que essa memória esteja recheada de tanta dor e sofrimento. Mas eles deixaram a dor da alma guardada e seguiram. Eram 30 pessoas, entre homens, mulheres – todos maiores de idade. E cada um levou o seu responsável, um funcionário de local onde fazem tratamento. E assim, numa alegria sem fim, invadiram a Estação da Praça do Relógio. Eram 9h30. O dia precisava ser bom. Sobretudo para eles.

Chegaram à estação de uniforme com o nome do centro de referência onde são atendidos: Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), em Taguatinga – referência no DF para pacientes com transtornos mentais .

Antes do embarque, formaram um círculo. De mãos dadas, saudaram o dia. E cantaram Maluco Beleza, de Raul Seixas:  “Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual. Eu do meu lado aprendendo a ser louco, um maluco total, na loucura real… Controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez, vou ficar, ficar com certeza maluco beleza…”

As pessoas que entravam ou saiam da estação, entreolhavam-se. Mas logo percebiam  exatamente o sentido de tudo aquilo. E acenavam positivamente. Alguns paciente distribuíram “pílulas”, feitas de silicone, para quem tinha  a delicadeza de receber. Dentro das pílulas, num papel, havia uma palavra escrita: amizade, gargalhada, amor, inclusão, paz, respeito, apoio, direito de ir e vir, fé…

Sem medo da vida
Edna Santana, de 42 anos, há 20 como técnica de enfermagem do HSVP, explicou aquele momento: “É uma forma de eles se sentirem iguais. A verdadeira inclusão é essa, diante da vida”. A psicóloga Mariana Tavares, 38, chefe do Núcleo de Oficina Terapêuticas,  acredita que passeios assim servem para lhes dar a sensação de segurança. “Eles não podem ter medo a vida”.

E a viagem iria começar. Na plataforma, à espera do trem, o coração de alguns deles parecia sair pela boca, tamanha a ansiedade e emoção. Celulares e selfies dominaram a cena. Alguns nunca haviam entrado numa estação de Metrô. A emoção só aumentava.

O trem chegou. Embarque no Carro Exclusivo. J. de 38 anos, (omitiremos os nomes para preservar a privacidade), era só alegria. Morador do Recanto das Emas, era a primeira vez que o carroceiro viajava de Metrô. “Nossa, é muito bom. É um luxo, parece que a gente tá voando…”

O trem seguiu, com destino à Estação Terminal Ceilândia. Um dos pacientes levou um pandeiro, e a música animou todo o carro. As mulheres embarcadas não demonstraram reação negativa. Pelo contrário. Recebiam as “pílulas“ da inclusão e contra o preconceito Iracema Cruz, de 39 anos, elogiou a iniciativa do passeio. “Tenho um parente que fez, por muito tempo, tratamento no Hospital São Vicente de Paulo. Eu sei o preconceito que ele sentia. As pessoas precisam aprender a conviver com o diferente.”

Sonhos
E a música rolou solta. De Xuxa a Índia, passando por Ivete Sangalo. Alegria era a única coisa que vibrava ali, além do balanço do trem. Até as usuárias começaram a cantar as músicas. Pelo menos ali, não havia diferença. Todos eram iguaizinhos,  como tinham que ser.

No meio de um deles, um ex-funcionário terceirizado do Metrô. J., 38 anos, morador de Planaltina. “Sou marceneiro e ajudei a construir a estação da 108 Sul. Fiz as portas. Mas um dia minha cabeça adoeceu, eu fiquei confuso e parei no Hospital.  É difícil, mas quem sabe um dia eu consiga fazer tudo de novo…”

M., 33, é de São João da Aliança (GO), mas faz tratamento no HSVP. Era caixa de lanchonete. “Do nada apareceu uma depressão. Só piorava. Depois, o psiquiatra também disse que sou bipolar. Aí, perdi emprego, alguns amigos e o respeito das pessoas. Tô aqui fazendo  tratamento. Me sinto 100% lúcida e não posso desistir”, ela diz. E decide: “Eu quero voltar à minha vida”.

G., de 20 anos, uma moça bonita de sorriso encantador, está na dúvida entre fazer jornalismo e enfermagem. “Gosto de escrever, mas no hospital descobri que gosto também de ajudar as pessoas doentes”, confidencia a moça do Paranoá.  E continua: “Às vezes, ouço vozes, mas sei que vou me curar”.

O trem voltou do Terminal Ceilândia para a Praça do Relógio. Hora de retornar para o Hospital. Há oficinas terapêuticas para desenvolver. A cabeça precisa estar ocupada. Eles precisam ser fortes. O mundo vai exigir isso de cada um deles. E, nem sempre, a viagem será por trilhos tão calmos e com monitores. No fundo, bem no fundo, cada um dos 30 pacientes sabe bem disso.

A primeira viagem foi feita. Pode ser o começo de tantas outras.

 

Mais informações:
Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF)
E-mail: imprensa.metrodf@gmail.com
Telefone: (61) 3353-7077/9285-7346

 

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