Quando a escuridão vira um detalhe

18 dez 2015

Menino de oito anos realiza o grande desejo de sua vida: andar na cabine de comando de um trem do metrô e virar piloto por uma tarde. Luiz Eduardo é a prova de que qualquer sonho pode ser real

Texto: Marcelo Abreu/Ascom/Metrô-DF
Fotos: Paulo Barros/Ascom/Metrô-DF

(Brasília, 18/12/2015) - Pelo barulho, enquanto espera o trem na estação, ele sabe se é da série 1000 (os mais antigos, em operação comercial há quase 15 anos) ou da série 2000 (em atividade desde 2010). Viajar de metrô é a coisa que mais o deixa feliz. Ele sonha com as viagens. Todos os seus sonhos são completamente subjetivos. Assim como os conceitos que formou e formará por toda sua vida.

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Luiz Eduardo Fonseca Dorneles tem oito anos. Mora em Taguatinga. E tem uma infinita vontade de descobrir, sentir, conhecer e ver – da forma que se acostumou a “ver” – tudo que lhe desperta a atenção e a curiosidade. Luiz, com tão pouca idade, encontrou a melhor forma de trazer a luz para dentro de sua vida. Mesmo que só ele a enxergue.

Filho único de um vendedor autônomo e uma dona de casa, Luiz mora em Taguatinga e sonha em trabalhar no Metrô-DF. Em qualquer função que o coloque em contato com o trem seu sonho mais real. Viajar num deles é a coisa de que mais gosta de fazer na vida.

Uma vez por semana, obrigatoriamente, a mãe o leva para passear de metrô. É quando ele aguça todos os sentidos. E o coração do menino de oito anos bate mais rapidamente do que a velocidade do trem. Quer ver Eduardo ficar triste é dizer que na naquela semana ele não irá fazer o passeio.

Andar na cabine, perguntando todas as suas dúvidas para o piloto, era o desejo mais constante. Sentir os painéis, tocar, manusear. A mãe mandou cartas para a direção da empresa. Contou sobre o desejo do filho. Com ansiedade, ele esperou a resposta. Às vezes, acordava na madrugada, esbaforido, depois de sonhar que estava na cabine do piloto.

Sonho
Desde os quatro anos, o menino de Taguatinga sonha o mesmo sonho. Mas antes da viagem em que viraria piloto, mais um imponderável. Os rins começaram a parar. Ele precisava fazer um transplante com urgência. Sua vida corria risco. Luiz foi para Porto Alegre. Ficou ali seis meses à espera de órgão. Cada dia era um dia a menos. Mas, como milagre, ele conseguiu. Veio a cirurgia. E a completa recuperação. Luiz voltou a sonhar o mesmo sonho de andar na cabine do metrô.

Enquanto esse dia não chegava, ele tocou a sua vida. Concluiu a 3ª série do ensino fundamental numa escola pública regular. É um dos mais elogiados da sala. Lê tudo em braile. Adora literatura. Participa até de um grupo de contadores de história. Está sempre atrás de desafios.

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Mas voltemos à Estação Terminal Ceilândia, local do começo da viagem. O grande dia chegou. E vai ser melhor do que ele poderia imaginar nos seus sonhos sem cor. Ele vestiu a melhor roupa: bermuda jeans, camisa de gola pólo com listras vermelhas e um sapato esporte preto. A mãe lhe passou uma colônia. Ele precisava ficar bem bonito. Quando sonhos vão ser realizados há de haver um ritual. Estava elegante, o Luiz. Hora de partir.

Finalmente, embarcou num trem da série 2000, para a melhor e mais aguardada viagem de sua vida: na cabine do piloto. Com destino à Estação Central (Rodoviária do Plano Piloto), o percurso durou 50 minutos e passou por 19 estações.

Assim que entrou na cabine, a primeira pergunta ao piloto: “Eu posso ir conversando com você? Perguntar tudo que quiser? Eu sempre quis estar aqui”. Karllos Laycon, de 30 anos, cinco como piloto do Metrô-DF, prometeu que sim. Responderia a todas as questões do novo piloto.

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Cofrinho
Pronto. Era o que ele mais desejava ouvir. Deu asa a quem só queria voar – leia-se: viajar na cabine daquele trem e sentir tudo que sua emoção subjetiva tanto imaginou. Mal o trem partiu, Luiz começou a perguntar. Indagou sobre velocidade, tempo da viagem, como fechar e abrir portas, os avisos sonoros que se ouvem nos carros. Tocou os painéis, sentiu tudo que desejou sentir.

A cada estação que se aproximava, ele sabia o nome de cor. “Ele sabe todas as estações, tanto as da linha de Ceilândia como as de Samambaia”, diz a mãe, Janaína Chaves da Fonseca, de 41 anos, que resolveu ser mãe de Luiz em tempo integral. E revelou mais um segredo: “Ele me perguntou se colocasse, todo dia, uma moeda dentro do cofrinho daria para comprar um trem do metrô”.

O trem seguiu viagem. Luiz não coube em si. Sentado na poltrona do piloto, sentiu-se o condutor daquele trem que carrega um monte de gente e suas histórias únicas. Luiz virou herói da melhor história que sonhou e conseguiu realizar.

A viagem continuou. O trem deixou a estação Shopping, sentido Rodoviária do Plano Piloto. Sob a orientação do piloto, que lhe ensinou exatamente como fazer, Luiz anunciou, no sistema de som, a chegada à Estação Asa Sul. “Eu estou na cabine do piloto, gente”. Em todos os carros (vagões), a voz dele foi ouvida. Os passageiros se entreolharam. E logo deduziram que alguém muito especial – e feliz – estava ali dentro.

O trem entrou no túnel. Escuridão total. Luiz está muito acostumado com a ausência de luz. Desde que nasceu, foi assim. Quando começou a entender a vida e o que o cercava, ele chamou Janaína e lhe perguntou: “Por que papai do céu quis que você enxergasse, mãe?” Ela, atônita, nada lhe respondeu. Apenas o abraçou como o aperto mais carinhoso que seus braços puderam alcançar.

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Para sempre
O trem desbravou a escuridão do túnel. Chegou ao ponto final: Estação Central. O piloto Luiz estava radiante. Mal conseguia falar, andar, sair da cabine. Todos os sentimentos se misturaram. Karllos, o piloto de verdade, estava visivelmente emocionado.

Foi a primeira vez que dividiu a sua cabine com alguém tão especial. Nunca mais ele se esquecerá desse dia. Janaína, olhando o filho com eterna admiração e os olhos marejados, disse: “Essa tarde ficará marcada para o resto da vida do Luiz. Posso até dizer que é o dia mais feliz da sua vida”.

Toda a completa escuridão que é a vida desse menino se encheu de luz e um monte de cor que ele criou na sua cabeça. Todas as que couberem nos seus sonhos, mesmo que eles – os sonhos – continuem em preto e branco. “Quando eu for presidente do Brasil, não vai ter uma só rua sem metrô”, diz o pequeno grande herói.

Um detalhe que ainda não foi dito. Nem precisaria. Mas vai como detalhe. Luiz Eduardo é cego. Completamente cego. Nasceu cego. E nunca enxergará nada. Isso é tão pouco diante da caminhada dele, que ficou exatamente para o fim de toda esta história.

A escuridão não o impediu de nada. De “ver” a vida como desejou enxergar. Não o impediu de ser verdadeiramente feliz. Tampouco de virar, mesmo por uma tarde mágica, um exímio piloto do Metrô de Brasília. Luiz Eduardo é a certeza de que sonhos podem, desde que se acredite neles, virar realidade. A cada dia, ele prova isso. O trem precisa partir.

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Mais informações:
Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF)
E-mail: imprensa.metrodf@gmail.com
Telefone: (61) 3353-7077/9285-7346

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