Mechas que viram vidas

Mechas que viram vidas
20 out 2015

Nesta segunda (19/10), na Estação Central, mais de 50 mulheres foram doar cabelo para pacientes que lutam contra o câncer. Um menino de 12 anos roubou a cena e comoveu todos

Texto: Marcelo Abreu/Ascom/Metrô-DF
Fotos: Paulo Barros/Ascom/Metrô-DF

As mulheres foram chegando aos poucos. Vieram de longe. Algumas, de ônibus. Outras, de metrô. De repente, eram muitas. E havia algo em comum entre todas elas: tinham enormes cabelos. E, no meio delas, um menino de 12 anos. Um único menino. E ele também tinha cabelo à altura da cintura.

Logo, a Estação Central, na Rodoviária do Plano Piloto, ficou cheia. A cada momento, mais e mais mulheres chegavam. Era hora de cortar. E compartilhar mais do que cabelo. Dividir solidariedade e dar um pouco de esperança para quem realmente precisa.

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O menino de cabelo comprido saiu de Santa Maria. Veio com avó. Enfrentou um calor escaldante dentro do ônibus lotado. Às 15h, chegou à Estação. Atílio Tavares Santos, de 12 anos, tinha uma missão inadiável. Ele foi ali para cortar o cabelo e doar para mulheres que, no momento mais complicado de suas vidas, travam uma terrível luta contra o câncer. O cabelo de Atílio vai virar uma bonita peruca para uma das tantas mulheres em tratamento no Hospital de Base.

Por longos dois anos, Atílio deixou o cabelo crescer. Um dia, ele viu uma reportagem com crianças do Hospital de Barretos, interior de São Paulo, especialista em câncer infantil. Comoveu-se com o drama daqueles meninos e meninas, tão crianças quanto ele.

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Disse à avó que faria alguma coisa por alguém que estivesse sofrendo por causa dessa doença. Soube que havia uma campanha onde cabelos podem devolver a autoestima de quem está doente. Não teve mais dúvida. Seus cabelos seriam sua doação. O melhor gesto. E gesto revela o ser humano.

Na escola, onde cursa a 6ª série, ouviu piadas dos colegas. Chamavam-no de ‘cabeludo’, de ‘maluco’. Uma vizinha de sua avó, com quem ele mora, foi impiedosa: “Sei não, cabelo comprido é coisa de homem vadio”. Ainda assim, ele resistiu. Aos 12 anos, Atílio conheceu o preconceito. E o venceu da forma mais sublime que alguém pode transformar a brutal intolerância: fazendo o bem.

Na tarde desta segunda-feira (19/10), Atílio virou herói. Cortou o cabelo bem curtinho. E todo o seu cabelo, que era muito, foi doado para a Rede Feminina de Combate ao Câncer. Depois, completamente satisfeito, ele disse: “Cabelo cresce. Eu precisava ajudar”.

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Depois, ou  antes do corte, cada voluntário, se quisesse, podia deixar uma mensagem no painel do evento. Atílio escreveu, com a letrinha de pré-adolescente: “Não pense no passado. Pense no futuro”. Saiu de lá realizado.

Emoção
As histórias se sucederam durante as quase três horas do evento, que continua nesta tarde. Naquele vaivém de gente, entre embarques e desembarques, a equipe de alunos do Centro de Formação Profissional Hélio Diff, que se juntou à campanha, cortaram os cabelos das muitas mulheres, que não paravam de chegar. Mais de 50 pessoas deixaram as suas mechas em nome da solidariedade.

A avó de Atílio, a copeira Enedina da Silva, 61, também cortou os longos cabelos. “Não custa nada. A importância de ajudar é maior do que tudo. Isso me faz feliz”, disse. E refletiu, de forma espetacular: “A gente veio ajudar. Mas acaba ganhando mais do que doa”.

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A agente de portaria Selzira Xavier (“mistura de Sebastião e Alzira”, explica ela, orgulhosa do nome que tem), 56 anos, saiu de Samambaia e chegou ali antes das 14h. “Não podia faltar de jeito nenhum. Ajudar alimenta a alma”, disse. “Vi uma reportagem na televisão, chamando para a campanha do Outubro Rosa. Fiquei muito tocada. Chamei minhas amigas, espero que elas venham.”

A professora Larissa Silveira, de 26 anos, protagonizou também uma das cenas mais comoventes da tarde de doação. É a segunda vez que ela doa suas madeixas. Enquanto o cabelo ruivo era cortado, o choro foi incontido. Há 15 anos, Larissa perdeu um irmão, vítima de um câncer devastador. O menino tinha apenas 5 anos. “Foi um choro, na verdade, de alegria por poder participar dessa ação. E ajudar a quem realmente precisa.”

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Os cabelos continuavam sendo cortados. A Banda Metrobala, em que um dos componentes é piloto do Metrô, tocou durante todo o evento. Uma das vocalistas canta Lanterna dos Afogados, de Herbert Viana: “Quando tá escuro e ninguém te ouve. Quando chega a noite e você pode chorar. Há uma luz no túnel dos desesperados. Há um cais de porto pra quem precisa chegar…”

Último desejo
Mais histórias chegam. Cada uma daquelas mulheres doa parte do cabelo por um motivo bem particular. A emoção não tem endereço fixo, classe social ou profissão. Solidariedade nivela todo mundo. Vem gente de todos os lugares. Passa das 19h. Os profissionais continuam cortando. E a fila ainda se forma.

Darci Ribeiro Castro, de 62 anos, coordenadora da Rede Feminina de Combate ao Câncer, entrou para o movimento no Hospital de Base depois de perder uma irmã. “Minha irmã dizia que quando ficasse boa, iria doar o cabelo. Não teve tempo. Não conseguiu”, contou Darci, que segue trabalhando pela causa nobre. E todo dia muda a própria vida e de tantas outras mulheres.

E a história mais impactante, vivida há pouco tempo, foi contada por Darci. Havia uma moça de 20 anos que estava muito mal, no Hospital de Base, lutando contra um câncer, A mãe queria doar os próprios cabelos para a filha, para ver se um pouco de ânimo na filha, maior autoestima. Enquanto se providenciava o corte dos cabelos da mãe, Darci arrumou uma peruca para a paciente. A moça experimentou. Deu um sorriso, depois um suspiro e morreu, lentamente. “Mas ela morreu bonita, como queria”, diz Darci.

Nesta segunda (19/10), na Estação Central, houve mais do que cortes de cabelos. Houve transformação de vidas. Houve prenúncio de esperança. E uma vontade enorme de fazer alguém voltar a sorrir. Mesmo que seja com um cabelo emprestado.

Outubro Rosa
O movimento popular internacionalmente conhecido como Outubro Rosa é comemorado em todo o mundo. O nome remete à cor do laço rosa, que simboliza, mundialmente, a luta contra o câncer de mama e estimula a participação da população, de empresas e de entidades.

Serviço
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Datas: 20 (hoje), 26 e 27 de outubro
Horário: das 17h às 19h
Local: Estação Central (Rodoviária do Plano Piloto)

Confira a galeria de fotos do evento
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